UMA CONVERSA COM PROFESSORES
por James Baldwin
The Saturday Review, 21 de dezembro de 1963
Nota prévia do tradutor
Lá pelos fins do seu livro Da próxima vez, o fogo, lançado num momento crucial de 1963, James Baldwin faz menção a uma das frases mais célebres de W.E.B. Du Bois, que encabeça o livro seminal deste autor, The Souls of Black Folk: “‘O problema do século XX’, escreveu W.E.B. Du Bois há sessenta anos, ‘é o problema da linha de cor’”. Aqui, falamos de uns EUA entre 1903 e 1963, ainda legalmente, judicialmente segregado, e a referida “linha de cor” da racialização, tal como em 2026 (no Brasil, no mundo), sejam elas inscritas ou não no âmbito da lei, classifica quem é e quem não é, quem pode ser e quem não pode ser: quem pode habitar o vale universal e absoluto da Humanidade — e quem não pode1. Muito imbricada na noção da “linha de cor” está aquilo a que Du Bois, num outro ensaio seu2, definiu como uma “deliberately educated ignorance of white schools”. Essa ignorância deliberadamente educada (deliberadamente educada para ser ignorante) — concordariam, sem dúvida, Baldwin e Du Bois — é o que supostamente justifica as atrocidades cometidas e mantidas pelas formas de imperialismos; é o que fecha as gentes numa ideia estreitíssima de “Homem” e humanidade; é o que sustenta a indiferença por tudo quanto não seja “branco” e estadunidense; é o que faz os EUA e Europa pensarem ser o centro de gravidade do mundo; é o que faz as pessoas brancas, enfim, e as pessoas brancas estadunidenses, como Baldwin irá dizer, perderem seu senso de realidade e, assim, desumanizam a si próprias. O texto a seguir dialoga com isso.
Convém recordar que 1963 foi o ano do assassinato (12/06/63) de Medgar Evers, um dos grandes líderes dos Civil Rights Movements. (Somente no ano seguinte, em 2 de junho de 1964, seria sancionado o Ato dos Direitos Civis, proibindo a discriminação com base na “raça”, cor, sexo, religião etc. em lugares públicos.) Escrito também em 1963, Uma conversa com professores foi inicialmente entregue a educadores na cidade de Nova Iorque, com o título “A Criança Negra — Sua Auto-Imagem” (The Negro Child—His Self Image). Depois, em 21 de dezembro de 1963, foi publicado em The Saturday Review. A proposta, como se verá, era alertar os professores a respeito dos alunos com os quais lidariam, vindos de realidades distantes das suas, ensinados num sistema que preza pela ignorância deliberadamente educada. Era um apelo a que os educadores fincassem pés na realidade presente e histórica que estavam vivendo e cumprissem com o mais nobre e elementar propósito da educação, isto é, formar seres humanos.
Na tradução, optei por algumas escolhas que julguei as mais adequadas. Por exemplo, a cada vez que “América” ou “americano” foi mencionado, inseri, entre colchetes, a especificação “EUA” ou “estadunidenses”. O ruído proporcionado por esses entre-colchetes é proposital, uma vez que casam com o sentido do texto (“Eu lhe sugeriria que ele está vivendo, no momento, numa enorme província. A América [os EUA] não é o mundo [...]”), porque se referem aos EUA e não ao continente chamado América, e nos relembra dos recentes, sempre recentes acontecimentos de 2025/26. É um ruído necessário e que nos causa estranhamento pela ordem de mundo vigente.
No texto, pode-se estranhar, ainda, a intensa repetição da palavra “Agora…” que encabeça certos parágrafos. O que poderia ser um vício textual cumpre um papel específico. Baldwin nos lembra, intencionalmente ou não, tal como dizia em seu reproche ao sulista William Faulkner3 (apesar de tudo, vitimado por aquela deliberately educated ignorance): “Depois de mais de duzentos anos de escravidão e noventa anos de liberdade parcial, é difícil achar bom o conselho de William Faulkner para ‘ir devagar’. ‘Eles não querem dizer ir devagar’, como disse, segundo relatos, Thurgood Marshall, ‘eles querem dizer não vá’. [...] o tempo que Faulkner pede não existe — e ele não é o único sulista que sabe disso. Não há momento nenhum no futuro em que iremos lutar pela nossa salvação. O desafio é o momento, a hora é sempre agora”.
— Miguel Fernandes.
Uma conversa com professores
James Baldwin
Vamos começar por dizer que estamos vivendo numa época perigosíssima. Todo mundo nesta sala, de alguma forma, está ciente disso. Estamos numa situação revolucionária, não importa quão impopular tenha se tornado essa palavra neste país. A sociedade em que vivemos está desesperadamente ameaçada, não por Kruschev, mas desde dentro. Então, todo cidadão deste país que se considera responsável — e, particularmente, vocês que lidam com a mente e o coração dos jovens — deve estar preparado para o “tudo ou nada”. Ou, dizendo de outro modo, devem entender que, na tentativa de corrigir tantas gerações de crueldade e má fé, uma vez que isso corre não apenas na sala de aula, mas na sociedade, vocês vão encontrar a mais fantástica, a mais brutal, a mais obstinada resistência. Não tem por que fingir que isso não vai acontecer.
Agora, já que estou falando com professores e eu mesmo não sou um professor, e às vezes me intimido tão facilmente, peço que me permitam deixar isso um pouco de lado e voltar ao que acredito ser o verdadeiro propósito da educação, em primeiro lugar. Parece-me que quando nasce uma criança, se o pai da criança sou eu, é minha obrigação e meu dever máximo civilizar aquela criança. O homem é um animal social. Ele não pode existir sem sociedade. Uma sociedade, por sua vez, depende de certas coisas que todos ali consideram óbvias. Agora, o paradoxo crucial que nos confronta, aqui, é que todo o processo de educação ocorre dentro de uma estrutura social e é moldado para perpetuar os objetivos da sociedade. Assim, por exemplo, os garotos e garotas que nasceram no momento do Terceiro Reich, quando educados para os propósitos do Terceiro Reich, se tornaram bárbaros. O paradoxo da educação é esse, precisamente: conforme a pessoa começa a se tornar consciente, ela começa a examinar a sociedade em que está sendo educada. O propósito da educação, enfim, é criar na pessoa a habilidade de olhar o mundo por si mesma, tomar suas próprias decisões, dizer para si mesma se isto ou aquilo é preto ou branco, decidir por si mesma se existe ou não um Deus no céu. Fazer perguntas ao universo, e então aprender a viver com essas perguntas, é assim que é conseguida a sua identidade própria. Mas sociedade nenhuma quer ter esse tipo de pessoa por aí. O que as sociedades querem real, idealmente, é uma cidadania que vá simplesmente obedecer às regras da sociedade. Se a sociedade sucede nisso, ela está então prestes a perecer. A obrigação de qualquer um que se considere responsável é examinar a sociedade e tentar mudá-la e combatê-la — não importa os riscos. Essa é a única esperança de uma sociedade. É o único jeito de as sociedades mudarem.
Agora, se o que eu tentei esboçar tem alguma valia, fica muito claro, ao menos para mim, que qualquer negro que nasce nesse país e é submetido ao sistema de educação americano corre o risco de se tornar esquizofrênico. Por um lado, ele nasce na sombra das listras e estrelas e é convencido de que isso representa uma nação que nunca perdeu guerra nenhuma. Ele jura lealdade a essa bandeira que garante “liberdade e justiça para todos”. Ele é parte de um país em que qualquer um pode se tornar presidente, e assim por diante. Porém, por outro lado, seu país e seus compatriotas o convencem de que ele nunca contribuiu em nada para a civilização — que o seu passado é nada além de uma série de humilhações bem resistidas. Ele é convencido pela república de que ele, seu pai, sua mãe e seus ancestrais eram uns negrinhos4 felizes, sem jeito, comedores de melancia5, que adoravam ao Sr. Charlie e à Sra. Ann6, e que o valor que ele tem enquanto homem negro provou uma só coisa — sua devoção aos brancos. Se acha que estou exagerando, veja os mitos espalhados nesse país a respeito dos negros.
Agora, tudo isso entra na consciência das crianças muito mais cedo do que gostaríamos de admitir. Enquanto adultos, somos facilmente enganados porque somos ávidos por ser enganados. Mas as crianças são diferentes. Elas, não cientes ainda de que é perigoso olhar demais alguma coisa, olham tudo, olham umas às outras, e tiram suas próprias conclusões. Elas não têm o vocabulário para expressar o que veem, e nós, os mais velhos, sabemos intimidá-las muito cedo e muito fácil. Mas uma criança negra, olhando o mundo ao seu redor, apesar de não saber o que fazer com isso, sabe que tem um motivo por que sua mãe trabalha tanto, por que seu pai está sempre no limite. Ela sabe que há um motivo por que seu pai ou sua mãe, se ela se sentar na frente no ônibus, lhe bate e lhe arrasta de volta para a parte de trás. Ela sabe que há um peso terrível e ameaçador nas costas dos pais. E não demora muito — na verdade começa quando ela ainda está na escola — até que ela descubra o formato de sua opressão.
Digamos que a criança tem sete anos e eu sou o pai, e decido levá-la ao zoológico, ou ao Madison Square Garden, ou ao U.N. Building7, ou a qualquer um dos monumentos imensos que encontramos por Nova Iorque inteira. Entramos num ônibus e vamos desde onde eu moro, na Rua 131, e passamos na Sétima Avenida pelo parque, no centro, e entramos em Nova Iorque, que não é o Harlem. Agora, o bairro onde mora o garoto — mesmo que seja uma habitação social — é um bairro indesejável. Se ele mora numa daquelas habitações sociais das quais todo mundo se orgulha em Nova Iorque, ele tem à sua porta, senão até mais perto, os cafetões, as prostitutas, os drogados — em suma, o perigo da vida no gueto. E a criança sabe disso, apesar de não saber o porquê.
Ainda me lembro da minha primeira vista de Nova Iorque. Realmente era outra cidade quando eu nasci — onde eu nasci. Olhávamos abaixo os trilhos de bonde na Park Avenue. Era a Park Avenue, mas eu não sabia que a Park Avenue era centro. A Park Avenue onde eu havia crescido, que ainda está de pé, é suja e escura. Ninguém sequer pensaria em abrir uma Tiffany’s8 naquela Park Avenue, e quando você vai ao centro, descobre que está literalmente no mundo branco. É rico — ou ao menos parece rico. É limpo — porque no centro há coleta de lixo. Há porteiros. As pessoas caminham como se fossem donas de onde estão — e são de fato. E é um grande choque. É muito difícil se identificar com isso. Você não sabe o que significa. Você sabe por instinto — que nada disso é para você. Você sabe antes que lhe seja dito. E para quem é? E quem paga por isso? E por que não é para você?
Depois, quando você se torna um entregador ou um carteiro e tenta entrar em algum daqueles prédios, um homem diz “Vai pra porta dos fundos”. Ainda, se você, por algum acaso estranho, tiver um amigo em um desses prédios, o homem diz “Cadê seu pacote?”. Agora, isso não é de modo algum o cerne do assunto. Aonde estou tentando chegar é que, nesse período, a criança negra terá tido de fato quase todas as portas das oportunidades fechadas na sua cara, e há muito pouco o que a criança possa fazer. Ela pode mais ou menos aceitar com uma raiva interna absolutamente perigosa e mal articulada — ainda mais perigosa porque nunca expressada. São justamente essas pessoas quietas que as pessoas brancas veem todos os dias de suas vidas — digo, o seu porteiro e sua empregada, que nunca dizem nada além de “Sim, Senhor” e “Não, Senhora”. Eles dirão que está chovendo, se for o que você quiser ouvir; e dirão que o sol está brilhando se for isso o que você quiser ouvir. Eles odeiam você — odeiam porque, na visão deles, você está entre eles e a vida. Quero retornar a isso já. É o fato mais sinistro, eu acredito, que enfrentamos agora.
Há outra coisa que a criança negra pode fazer também. Todo garoto de rua — e eu era um garoto de rua, por isso eu sei —, olhando a sociedade que o produziu, olhando os padrões daquela sociedade que não são honrados por ninguém, olhando as suas igrejas e o governo e os políticos, entende que essa estrutura opera para o benefício de alguém — não para o seu. E nisso não há espaço para ele. Se ele é realmente astuto, realmente durão, realmente forte — ele se torna um tipo de criminoso. Torna-se um tipo de criminoso porque é o único jeito de ele viver. O Harlem e qualquer gueto dessa cidade — qualquer gueto desse país — é cheio de gente que vive fora da lei. Eles nem sonham em ligar para a polícia; eles não querem escutar, nem por um momento, nenhuma daquelas profissões das quais nos orgulhamos tanto no Quatro de Julho9. Eles se dissociaram desse país para sempre e totalmente. Eles vivem de sua astúcia e esperam pelo dia em que essa estrutura cair.
O ponto disso tudo é que homens negros foram trazidos aqui como fonte de mão de obra barata. Foram indispensáveis para a economia. Para justificar o fato de que esses homens eram tratados como animais, a república branca teve que se lobotomizar para crer que eles eram mesmo animais e que mereciam ser tratados como animais. Portanto, é quase impossível para qualquer criança negra descobrir alguma coisa de sua verdadeira história. O motivo é que esse “animal”, uma vez que ele suspeita do seu valor próprio, uma vez que começa a acreditar que é um homem, ele começa a atacar toda a estrutura de poder. É por isso que a América [EUA] gastou tanto tempo mantendo o negro no lugar. O que estou tentando sugerir é que não foi acidente, não foi um ato de Deus, não foi feito por gente bem intencionada se estabanando com algo que não entendiam. Foi uma política deliberadamente posicionada para fazer dinheiro com a carne negra. E agora, em 1963, porque nunca encaramos este fato, corremos um perigo insuportável.
A Reconstrução, conforme li o relato, foi uma barganha entre o norte e o sul para o seguinte efeito: “Nós os libertamos da terra — e os entregamos aos patrões”. Quando deixamos o Mississippi para vir ao norte, não chegamos à liberdade. Chegamos ao fundo do mercado de trabalho, e ainda estamos aqui. Até a Depressão dos anos 1930 falhou em causar impacto na relação dos negros com os trabalhadores brancos nas uniões sindicais. Até hoje, de tão lobotomizada que é esta república, as pessoas perguntam, com o que supõem ser boa-fé, “O que o negro quer?” Já ouvi muitas perguntas burras na minha vida, mas essa talvez seja a mais burra e a mais ofensiva. Mas o ponto, aqui, é que as pessoas que fazem essa pergunta, pensando que a fazem de boa-fé, são na verdade as vítimas dessa conspiração que faz os negros crerem que são menos humanos.
Para que eu pudesse viver, muito cedo eu decidi que algum erro havia sido cometido em algum lugar. Eu não era um “negrinho”, apesar de você me chamar assim. Mas se eu era um “negrinho” aos seus olhos, devia haver algo a respeito de você — algo que você precisava. Muito jovem eu tive de perceber que eu não era nada do que diziam que eu era. Eu não era, por exemplo, feliz. Nunca encostei numa melancia, por vários motivos. Eu havia sido inventado por pessoas brancas, e eu sabia o bastante da vida nessa época para entender que o que você inventa, o que você projeta, é você! Então, o ponto a que chegamos agora é o de um país inteiro acreditando que eu sou um “negrinho” e eu não, e a rixa está aí! Porque, se eu não sou o que me disseram que eu sou, significa que tampouco você é o que pensava que era. E a crise é essa.
Na verdade, não é uma “revolução negra” que está perturbando o país. O que está perturbando o país é uma noção de sua própria identidade. Se alguém conseguisse, por exemplo, mudar toda a grade curricular nas escolas, de modo a que os negros aprendessem mais sobre si mesmos e sobre as suas verdadeiras contribuições a essa cultura, isso libertaria as pessoas brancas que não sabem nada de sua própria história. E o motivo é que, se você está inclinado a mentir sobre um aspecto da cultura de alguém, você tem de mentir por inteiro. Se você tem de mentir a respeito da minha verdadeira função aqui, se você tem de fingir que eu colhi todo aquele algodão só porque eu o amava, então você fez algo a si próprio. Você é louco.
Agora voltemos um minuto. Anteriormente eu falei daquelas pessoas quietas — o porteiro e a empregada — que, como eu disse, não olham para o céu se você lhes pergunta se está chovendo, mas olham para a sua cara. Meus ancestrais e eu fomos muito bem treinados. Desde muito cedo entendemos que essa não era uma nação cristã. Não importava o que você dissesse ou com que frequência ia à igreja. Meu pai e minha mãe e meu avô e minha avó sabiam que cristãos não agiam dessa forma. Simples assim. E, assim sendo, não havia por que lidar com as pessoas brancas em termos de suas próprias profissões morais, porque elas não iriam honrá-las. O que se fazia era virar, sorrindo o tempo todo, e dizer às pessoas brancas o que elas queriam ouvir. Mas as pessoas o acusam de arrogante quando você diz isso.
Tudo isso quer dizer que há neste país uma imensa reserva de amargura que ainda não conseguiu achar vazão, mas que pode achar em breve. Isso quer dizer que os liberais brancos bem-intencionados se colocam em grande perigo quando tentam lidar com negros como fossem missionários. Quer dizer, em suma, que é exigido um preço caro para libertar todas aquelas pessoas quietas a ponto de respirarem pela primeira vez e elas dizerem o que acham de você. E é exigido um preço para libertar todas aquelas crianças brancas — algumas delas beirando os quarenta — que nunca cresceram, e que não vão crescer nunca, porque não têm noção nenhuma de sua identidade.
O que se entende por identidade na América [E.U.A.] é uma série de mitos a respeito dos ancestrais heróicos de alguém. É surpreendente para mim, por exemplo, que tanta gente pareça crer de verdade que o país foi fundado por um grupo de heróis que queriam ser livres. Acontece que isso não é verdade. O que aconteceu foi que algumas pessoas deixaram a Europa, porque lá não conseguiam mais ficar, e tiveram de ir a outro lugar. É isso. Eles tinham fome, eram pobres, eram criminosos. Quem estava dando certo na Inglaterra, por exemplo, não entrou no Mayflower10. Foi assim que o país se assentou. Não foi com Cary Cooper. Ainda assim, temos toda a raça de um povo, uma república inteira que acredita nos mitos a ponto de ainda hoje escolher os seus representantes, até onde eu sei, com base no quão parecidos eles são com Gary Cooper. Agora, isso é perigosamente infantil, e fica evidente em todos os níveis da vida nacional. Quando eu estive morando na Europa, por exemplo, uma das piores revelações para mim foi o jeito que os americanos [estadunidenses] andavam pela Europa comprando isso e aquilo e insultando todo mundo — não por maldade, mas porque não sabiam fazer melhor. Bem, é assim que eles sempre me trataram. Não eram crueis, eles só não sabiam que você estava vivo. Não sabiam que você tinha sentimentos.
O que estou tentando sugerir aqui é que, ao fazer isso durante 100 anos ou mais, foi o branco americano que desde então perdeu o senso de realidade. De alguma forma peculiar, tendo criado esse mito sobre os negros, e o mito da sua própria história, ele criou mitos sobre o mundo de um modo a que, por exemplo, ele fique surpreso por algumas pessoas preferirem [Fidel] Castro; surpreso que há pessoas neste mundo que não vão se esconder quando ouvirem a palavra “Comunismo”; surpreso que Comunismo é uma das realidades do século XX a qual não iremos superar fingindo que não existe. O nível político nesse país, agora, por parte das pessoas que deveriam saber mais, é abismal.
Em alguma parte da Bíblia é dito que onde não há visão, o povo perece11. Creio que ninguém pode duvidar que hoje neste país estamos ameaçados — intoleravelmente ameaçados — por uma falta de visão.
É inconcebível que um povo soberano deva continuar, como fazemos tão abjetamente, a dizer “Não posso fazer nada. É o governo”. O governo é criação do povo. É responsável pelo povo. E o povo é responsável por ele. Americano [estadunidense] nenhum tem o direito de permitir que o governo diga — uma vez que as crianças negras estão sendo bombardeadas e arrebentadas e alvejadas e espancadas por todo o sul — que não há nada que possamos fazer. Deve ter havido um dia na vida deste país em que o bombardeamento de quatro crianças na Sunday School12 criaria um tumulto público e ameaçaria a vida de um Governador Wallace13. Aconteceu aqui, e não houve tumulto público.
Eu comecei dizendo que um dos paradoxos da educação era justamente que, quando você começa a desenvolver uma consciência, você deve se encontrar numa guerra travada contra a sociedade. É uma responsabilidade sua mudar a sociedade se você se considera uma pessoa educada. E, com base nas evidências — evidência moral e política —, a pessoa fica inclinada a dizer que essa é uma sociedade às avessas. Agora, se eu fosse um professor nessa escola, ou em qualquer outra escola negra, e eu estivesse lidando com crianças negras, as quais estariam sob os meus cuidados apenas algumas horas todos os dias e então voltariam para as ruas; crianças apreensivas com seus futuros que a cada hora fica mais medonho e sombrio, eu lhes tentaria ensinar — tentaria fazê-los saber — que aquelas ruas, aquelas casas, aqueles perigos, aquelas agonias pelas quais eles estão cercados são criminosas. Eu tentaria fazer cada criança saber que essas coisas são o resultado de uma conspiração criminosa que as quer destruir. Eu lhe ensinaria que, se ela pretende se tornar uma pessoa, deve decidir de uma vez que ela é mais forte que essa conspiração e que nunca deve fazer as pazes com ela. E uma das suas armas para se recusar a fazer as pazes com ela e destruí-la depende do valor próprio que essa criança decidir que tem. Eu lhe ensinaria que há, atualmente, pouquíssimos padrões neste país que merecem o respeito de alguém. Que cabe a ela começar a mudar estes padrões, pelo bem da saúde e da vida deste país. Eu lhe sugeriria que a cultura popular — conforme representada, por exemplo, na televisão e nos quadrinhos e nos filmes — é baseada em fantasias criadas por pessoas doentes, e que ela deve estar ciente de que essas fantasias nada têm a ver com a realidade. Eu lhe ensinaria que a imprensa que ela lê não é tão livre como afirma ser — e que ela pode fazer algo a esse respeito. Eu tentaria fazê-la saber que, tal como a história americana [estadunidense] é maior, mais vasta, mais diversa, mais bela, e mais terrível do que qualquer coisa que alguém já disse a esse respeito, assim é também o mundo, mais vasto, mais desafiador, mais belo e mais terrível, mas principalmente mais vasto. Eu a ensinaria que ela não tem que estar vinculada aos expedientes de Administração nenhuma, de política nenhuma, de tempo nenhum — que ela tem o direito e a necessidade de examinar tudo. Eu tentaria mostrá-la que não aprendemos absolutamente nada a respeito de Castro quando dizemos “É um Comunista”. Esse é um jeito de não aprender nada sobre Castro, sobre Cuba, na verdade, sobre o mundo. Eu lhe sugeriria que ela está vivendo, no momento, numa enorme província. A América [os EUA] não é o mundo, e se a América [os EUA] vai se tornar uma nação, ela tem de encontrar um jeito — e essa criança deve ajudá-la a encontrar um jeito — de usar o imenso potencial e a imensa energia representada por essa criança. Se esse país não encontrar um jeito de usar essa energia, será destruído por ela.
[Extraído de James Baldwin, Collected Essays, pp. 678-686. Ed. Toni Morrison, Library of America.]
Tradução: Miguel Fernandes.
Para considerações mais aprofundadas, conferir o conceito da ”zona do não-ser” em Frantz Fanon (Pele Negra, Máscaras Brancas), já na introdução; e o artigo conjunto de Deivison Faustino e Nilson Lucas Dias Gabriel, “O racismo e a zona do não ser em Frantz Fanon, eis a questão” (Pensar Fanon, Ubu Editora). [Nota do tradutor]
The Souls of White Folk. O título do ensaio faz uma geniosa inversão do título de The Souls of Black Folk: agora é Du Bois, um homem negro, que coloca “o branco” na posição de “objeto de estudo”. [N. do T.]
Cf. “Faulkner and Desegregation”. [N. do T.]
“Negrinhos”, aqui, se refere a “nigger”. Trata-se de um termo racista e de extrema ofensa à população negra norte-americana. Apesar da proximidade com a palavra “negro”, não há um equivalente exato no Brasil que carregue o mesmo teor do termo em inglês. [N. do T.]
A associação entre “negro” e “melancia” é um estereótipo racista cuja aparição data do período pós-Guerra Civil. [N. do T.]
No original, “Mr. Charlie” e “Miss Ann”. A população negra norte-americana se referia assim aos senhores de escravizados ou a pessoas brancas que tinham ações, comportamentos escravagistas — seja a violência explícita ou a típica condescendência liberal, conforme Baldwin critica a figura de Harriet Beecher Stowe e seu Uncle Tom’s Cabin. [N. do T.]
Prédio das Nações Unidas em Nova Iorque. [N. do T.]
Tiffany & Co. é uma típica grife de joias nova-iorquina. [N. do T.]
Dia da independência dos EUA. [N. do T.]
Famoso navio que transportou os assim chamados peregrinos, em 1620, desde a Inglaterra até os EUA. [N. do T.]
Provérbios 29:18. [Nota de Toni Morrison] — Segundo a Bíblia do Rei Tiago (King James Version): “Where there is no vision, the people perish: but he that keepeth the law, happy is he”. Em versões brasileiras, é dito: “Um povo que não aceita a revelação do SENHOR é uma nação sem ordem” (sic.); ou: “Onde não há visão profética, o povo perece”. Naquela, é notável a ideia de “nação” + “teologia”. [N. do T.]
Baldwin se refere ao bombardeamento da 16th Street Baptist Church, ocorrido em 15 de setembro de 1963, no Alabama. Quatro membros do grupo supremacista branco da Ku-Klux Klan plantaram dinamites nas escadas de uma parte da igreja, vitimando as mencionadas quatro meninas negras. [N. do T.]
Governador do Alabama, defensor da segregação racial. [N. do T.]





excelente tradução!!
parabéns, miguel!!!