A PROPÓSITO DE MACBETH
por Jean Domarchi
“À propos de Macbeth”, Gazette du Cinéma N°2, pp. 1, 4; junho de 1950
A adaptação de um romance ou de uma peça de teatro às telas, condenável a princípio, só faz sentido se revela as intenções profundas de uma obra que muito frequentemente é destinada ao cinema1. A operação, portanto, só vale se soubermos mais após a apresentação do que antes dela. De fato, o sentimento de profunda decepção que nos invade após uma tentativa do tipo demonstra bem quão grande é o risco que ela implica e quão mutiladas ou distorcidas são, muitas vezes, as intenções secretas ou confessas do literato. O Macbeth de Orson Welles se enquadra nessa reprovação? Achamos que não porque o filme consiste num comentário magistral de uma tragédia no mais elevado ponto de ambiguidade2. Não que seja esse o único comentário possível (pois poder-se-ia conceber vários outros), mas o ponto de vista adotado por Welles parece, cinematograficamente, o mais convincente e eficaz. Mesmo que Welles, com Macbeth, houvesse cometido um contrassenso (o que não é o caso), seria um contrassenso genial, porque ele nos ensina mais que qualquer superficialidade universitária ou quaisquer suposições algo inéditas.
E não é somente o nosso conhecimento de Macbeth que se enriquece, mas também o nosso conhecimento das próprias possibilidades de cinema, pois que os encantamentos da língua encontram seu equivalente exato na magia das imagens. Welles, sem impingir a menor violência ao texto (a busca por fidelidade aqui é levada ao mais alto ponto), demonstra que há lugar para uma transcrição puramente visual, que acrescenta ao texto sem jamais afetá-lo com simbolismos baratos.
O segredo desse êxito consiste, creio eu, no fato de que Welles assumiu a audaciosa posição de contar a história do ponto de vista do próprio Macbeth. Pôde dar à sua versão, assim, um caráter fantástico, onírico mesmo, que sem dúvida corresponde à visão de um mundo cercado das forças do etéreo e do ínfero diabólicos e divinos e no qual uma cristianização próxima ainda não dissipou as crenças e representações pagãs.
Essa impressão desordenada, esse fluxo de imagens que concordamos em reconhecer no filme de Welles, são o fruto de um parti pris estético que convém não somente ao cinema, mas ao próprio Macbeth. Pois — não esqueçamos — Macbeth é não somente uma tragédia metafísica (o destino de um indivíduo em luta com o além), mas também uma tragédia da imaginação. Macbeth é um visionário cujos discursos líricos se opõem ao gênio calculista e prosaico de Lady Macbeth. Tudo lhe é bom para escapar à tensão de uma situação que o ameaça e cujo horror e perigo se fazem, a cada momento, mais intensos. É pelo esplendor do verbo que Macbeth exorciza os tabus de um mundo que o vaticínio das feiticeiras o levam a questionar e conquistar. É a riqueza desses monólogos e desses apartes que era mister tornar sensível aos espectadores. Daí o aspecto caótico, vulcânico das imagens, os décors monstruosos desses palácios bárbaros que constituem o exato contraponto da recitação lírica. Daí o papel singular e decisivo dos elementos naturais (a terra, o ar) que chegam, em certos momentos, a substituir os atores humanos, confirmando ao texto o sentido pleno que ele demanda.
Teatro filmado? Macbeth não é cinema no sentido em que Aurora, A Linha Geral ou Louisiana Story o são. E, no entanto, na medida em que o desenvolvimento puramente dramático do drama shakespeariano se encontra, neste filme, subordinado às intenções metafísicas que encontram seus exatos correspondentes na necessária sucessão de imagens – quem ousaria negar que se trata, aqui, de cinema no sentido mais preciso do termo?
Com tal tentativa, o cinema resgata essa autonomia indispensável que a chegada do cinema falado parecia ter comprometido em definitivo. Parece que Welles, talvez mais que em Citizen Kane e Magnificent Ambersons, terá conciliado as exigências contraditórias da palavra e da imagem.
O perigo da palavra é fazer do cinema a sucursal democrática do teatro; o da imagem é reduzir o cinema à pintura e à fotografia. Ora, Macbeth está longe de ser um decalque da peça (no sentido em que Delacroix, se vivesse hoje, poderia conceber). Se para Welles Macbeth é um ponto de chegada de esforços precedentes, para o cinema é um ponto de partida, uma retomada em novos ares dos ensinamentos do cinema mudo.
Jean DOMARCHI
Tradução: Miguel Fernandes.
Vale notar que as ideias expressas neste texto menor são retomadas e melhor desenvolvidas por Jean Domarchi num texto posterior, Literatura e cinema (publicado nos Cahiers du Cinéma N°18, março de 1953), cuja tradução já foi publicada aqui. [Nota do tradutor]
Tradução imprecisa. Palavra pouco legível no material original. [N. do T.]


