INEXORÁVEL DULÇOR
por Jean Domarchi
“Une inexorable douceur”, Cahiers du Cinéma N°98, pp. 57-58, agosto de 1959.
Para falar convenientemente de A Imperatriz Yang Kwei Fei, um dos últimos filmes de Kenji Mizoguchi, seria preciso mobilizar todo um arsenal de comparações musicais. O cinema é a arte mais próxima da música porque é uma arte do tempo e a economia interior de um filme se aproxima muito mais da de um concerto, de uma sonata, mesmo de uma sinfonia, do que da de um quadro ou de um romance. Se, portanto, Yang Kwei Fei pode evocar a Berenice de Racine por sua decadência elegíaca, Cinna ou Nicomedes de Corneille pela amplitude de interesses em jogo, e Ricardo II de Shakespeare pelo papel da personagem imperial, é com Mozart, finalmente, que a comparação se impõe, em razão de uma incomparável suavidade de modulação1. O principal ator de Yang Kwei Fei não é nem o imperador Huang Tsung nem a imperatriz Kwei Fei, é o tempo. O imperador destronado e relegado a uma ala de seu palácio recorda tempos passados. E é a qualidade incomparável dessa lembrança que confere ao filme seus tons sublimes, pois que a evocação de um passado ainda muito próximo e tão feliz permite a esse príncipe elegíaco alcançar a eternidade. A fragilidade e a incerteza de um amor temporal se anulam em prol de uma felicidade eterna mais forte que a morte. O amor é uma vocação e implica, evidentemente, uma exigência do absoluto na medida em que pretende escapar às contingências do tempo e da morte. Ele recusa a inexorável necessidade e a implacável lógica do nosso universo, suas servitudes, suas leis e seus limites. Daí o tema da reencarnação que nos assegura que a própria morte não faz prevalecer, contra nosso afã de eternidade, a nossa crença no triunfo do amor. Pensamos, aqui, no admirável Vertigo de Alfred Hitchcock, porque os dois filmes têm em comum o fato de serem uma meditação sobre o amor e a morte.
É nesse sentido que se pode dizer que, não obstante a estranheza de roupas e costumes, Mizoguchi é o mais ocidental dos cineastas japoneses. Se seu filme nos toca tão profundamente, é porque ilustra um dos temas mais profundos da sensibilidade ocidental: o tema do amor cortês.
Não é inútil saber que a ação ocorre no século VIII à época da dinastia Tang. O império chinês, como o seu contemporâneo império carolíngio, é um império feudal dominado por uma aristocracia de trabalhadores que sonham apenas com independência. Tanto no Oriente como no Ocidente, o imperador tem muito que fazer para obter o respeito de seus dignitários e assegurar a unidade do império. Ele deve lutar sem cessar contra as tentativas de “pronunciamiento” (sic.) dos poderosíssimos governadores de fronteira. A polidez empertigada dos altos funcionários, sua bajulação, o ritual da cerimônia imperial mascaram muito mal a brutalidade dos costumes. Mata-se com sinais exteriores de respeito, mas mata-se assim mesmo. Desse modo, o exotismo de costumes e maneiras não deve fazer-nos esquecer o parentesco íntimo que vem de civilizações aparentemente tão distintas. Em Constantinopla, em Aquisgrão bem como em Xian, reina um clima idêntico de complôs, maquinações, intrigas, lucro e pilhagens, e pensamos inelutavelmente nos reinos da história do ocidente europeu, igualmente conturbados e igualmente férteis em tragédias íntimas.
Mizoguchi nos faz sentir isso tudo; eu ficaria surpreso se este filme fosse cheio dos anacronismos que desfiguram tantos filmes europeus. Fico encantado pela justeza dos detalhes, pela autenticidade do clima. Tamanha delicadeza é garantia de uma perfeita harmonia do conjunto. À tragédia política, história de um império tão poderoso em aparência e tão debilitado na realidade, responde uma tragédia privada que o infortúnio do tempo torna ainda mais pungente. Nesse mundo a um só tempo bárbaro e refinado, não se precisa de um príncipe sonhador e esteta que não conforma a sua conduta com a razão do estado. A razão profunda dos dissabores do imperador Huang Tsung não é que a família de sua mulher desperdiça sua fortuna, mas que ele dedica tempo demais à música e ao amor. Ele sacrifica a arte de reinar pela arte de viver e subordina imerecidamente as exigências do poder às da paixão. Em consequência, o renunciamento de Yang Kwei Fei não lhe serve de nada e ela perecerá por sua culpa. Ainda aqui, Mizoguchi leva à perfeição o caráter ao mesmo tempo cativante e decepcionante desse nobre personagem.
Essa “chronicle play” é magistralmente servida por uma mise en scène e uma cor de incomparável delicadeza. Quanta graça, quanta suavidade no emprego dos tons abafados e quebrados que exaltam por vezes os tons claros e fulgurantes. É evidente que é Mizoguchi o responsável por esse êxito, pois seu operador havia sido menos feliz em O Portal do Inferno2.
Eu intitulei essa crítica “inexorável dulçor”. Não faz pensar em Resnais diante dessa mescla tão inteligente de crueldade e suavidade?
Jean DOMARCHI
Tradução: Miguel Fernandes.
A respeito de Mizoguchi, Jacques Rivette escreveu em termos semelhantes. Cf. “Mizoguchi visto daqui” (“Mizoguchi vu d’ici”), Cahiers N°81, março de 1958. [Nota do tradutor]
Refere-se a Teinosuke Kinugasa, que havia dirigido Jigokumon (1953). [N. do T.]


