AMADOR VERSUS PROFISSIONAL
por Maya Deren
“Amateur Versus Professional”, Film Culture N°39 (1965), pp. 45-46.
Tradução: Miguel Fernandes (2022).
O maior obstáculo para os cineastas amadores é a sua própria noção de inferioridade em relação às produções profissionais. O próprio termo “amador” tem um tom de penitência. Mas essa mesma palavra, “amador” — do latim “amator” —, significa alguém que faz algo por amor pela coisa em vez de por motivações financeiras ou por necessidade. E é desse significado que o cineasta amador deve tirar sua inspiração. Em vez de invejar o roteirista, o dialoguista, os atores treinados, os sets, as equipes melhores providas e o enorme orçamento de um filme profissional, o amador deve fazer uso da grande vantagem que todos os profissionais invejam, a saber, a liberdade — tanto artística quanto física.
Liberdade artística quer dizer que o cineasta amador jamais é forçado a sacrificar a beleza e o drama visual em nome de um fluxo de palavras, palavras, palavras, e palavras; em nome da inexorável progressão e explicação de uma trama, ou do tempo de tela de uma estrela ou de um produto patrocinado. Também não se espera de uma produção amadora o retorno de um grande investimento, ao ter conseguido manter a atenção do grande público por 90 minutos.
Assim como o fotógrafo amador, o cineasta amador pode se dedicar a capturar a poesia e a beleza dos lugares e dos acontecimentos, e, desde que esteja usando uma câmera de cinema, pode explorar o vasto mundo da beleza dos movimentos. (Um dos filmes que ganharam menção honrosa no Creative Film Awards de 1958 foi ROUND AND SQUARE, um tratamento rítmico e poético dos faróis dançantes dos carros conforme passavam pela estrada, sob as pontes, etc.) Em vez de tentar criar uma trama que se mova, use o movimento, ou o vento, ou a água, as crianças, as pessoas, os elevadores, os bailes, etc. tal como um poema deve celebrá-los. E use sua liberdade para experimentar ideias visuais. Seus erros não lhe farão ser demitido.
Liberdade física inclui liberdade temporal — liberdade dos prazos impostos pelo orçamento. Mas, acima de tudo, o cineasta amador, com seu pequeno e leve equipamento, é dotado de imperceptibilidade (as filmagens espontâneas1) e de uma mobilidade física que é justamente o que muitos profissionais invejam, sobrecarregados por seus monstros de várias toneladas, pelos cabos e pela equipe. Não se esqueça que ainda não foi construído um tripé tão miraculosamente versátil no movimento como o complexo sistema de ossos, juntas, músculos e nervos que é o corpo humano, que, com um pouco de prática, torna possível a grande variedade de ângulos de câmera e de ação visual. Você tem tudo isso, e também um cérebro, num só único conjunto, organizado, compacto, e móvel. Câmeras não fazem filmes; cineastas fazem filmes.
Aprimore os seus filmes, não adicionando equipamentos ou uma equipe maior, mas usando o que você tem em sua capacidade máxima. A parte mais importante do seu equipamento é você mesmo: o seu corpo móvel, a sua mente imaginativa, e a sua liberdade em usar ambos. Certifique-se de usá-los.
Tradução: Miguel Fernandes.
(2022)
“Candid shooting”, “fotografia cândida”. [N. do T.]




difinitivamenti nha novu traduson favoritu dibô!!!!
"Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão."